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Onde o Mar Abraça

Onde o Mar Abraça

23 Ago, 2021

Ser lar.

Na casa dos avós somos felizes de forma especial. Para muitos, a casa dos avós é um lar, onde encontram paz, amor e alento. Os meus avós, em especial, a minha avó ensinaram-me o que pode ser o amor. Nunca exigi que gostassem de mim, mas eles gostavam sem esforço, sem pedir mudanças. Eles gostam de mim da forma como sou e respeitam-me tal como escolho ser e agir. Jamais me pediram para ser quem não sou. E se hoje, sou o que sou, devo muito a eles. A este amor que tantas vezes me salvou de dar um passo em falso.

Acontece que, os avós não duram uma eternidade na terra. As memórias que temos com eles perdurarão no tempo, mas eles não. Então, tantas foram as vezes em que a minha avó me dizia que as palavras o tempo leva, as vontades deixam de ser as mesmas, as ações prevalecem e marcam, e o amor sempre vem e nos faz de lar. Haverá quem nos mereça, não importa o tempo que leve até acontecer. Que é preciso saber ser lar para alguém, saber cuidar e amar essa pessoa sem esperar nada em troca, sem a mudar. Quem ama não modifica, não pede por mudanças. Aceita e respeita.

Embora soubesse que a minha avó dizia-me a verdade, tantas vezes questionei se seria merecedora de ser lar e de encontrar um lar, sem ser o lar dos meus avós. Não me imaginava a ser um porto seguro para alguém, nem pensava que era possível encontrar um abrigo num coração alheio. Felizmente, depois de tudo o que passei, o meu lar chegou. Chegou com calmaria, num dia de verão – logo eu, que desejava um amor de verão que durasse todas as estações –, com uma forma de me conquistar imbatível, fazendo-me assentar os pés no chão e deixar de sonhar acordada. Afinal, o sonho tornou-se realidade, uma realidade que tantas vezes duvido porque julgo não ser merecedora de tanto.

Há uns poucos meses atrás mencionava que já não sabia o que era estar apaixonada. Inocente fui, ao proferir tais palavras. Nunca soube o que era estar apaixonada. Não sabia como era o amor até o sentir agora. É uma vontade de estar presente constantemente; dar colo e abrigo em todas as situações; dar a mão e caminhar lado a lado, contra tudo e todos; proteger com toda a garra que temos; fazer rir mas também fazer chorar; ouvir as mais belas frases de amor e as mais duras verdades; é crescer dia após dia; uma felicidade sem igual e uma impotência desmedida só de pensar na perda.

Agora sei que ter a oportunidade de amá-lo – um ser humano completo, de personalidade forte, com valores que prezo e com um coração gigante –, é o maior privilégio que tive na vida. Perdê-lo seria esmagar-me por inteiro, até não restar nenhum pedaço do que fui, pois sem ele o ar me esgota, a alegria acaba, os dias passam sem sentido e o meu mundo (que é ele) se destrói.

O amor nos transforma de formas que julgava impossíveis. Hoje entendo o porquê de tanto sofrimento, de tudo ter dado errado, de todos os testes que sofri, de todas as lágrimas derramadas. Agradeço cada passo na minha história, porque todos os passos dados me trouxeram para perto dele.

Dizem que o amor não é descritivo, que apenas se sente. Poder sentir é um privilégio, dado a muito poucos. Quando é amor nós sabemos. Quando é amor não importa o tempo, mas sim a intensidade. Nunca será o tempo, será sempre a pessoa com quem estamos.

A minha vida ganhou uma cor abismal. Começo a entender o que de facto é o amor. Não há medo de dizer, nem de sentir o que sinto. Estou perdidamente apaixonada e não mudaria nada na nossa história, porque só assim ela faz sentido.

(A minha avó tinha/tem razão, tinha/tem o dom da palavra: aparecerá alguém que nos mereça, não importa quanto tempo demore, ele está apenas à nossa procura, até que um dia, os nossos caminhos se cruzam. Deixo o lar dos meus avós, em breve, para viver no lar onde sou infinitamente feliz: ao lado dele. E ambos sabemos que estarei bem entregue e protegida eternamente.)

Para o meu amor, D.: estou mais que pronta para ser o lar que mereces. ❤️

04 Ago, 2021

Ser quem não sou.

Desde que me lembro que sou instigada a ser alguém que não sou. A parecer ser uma pessoa que não eu. A ser mais magra, mais triste, mais infeliz, mais altiva, mais de aparências. Eu só quero ser eu mesma! Só quero poder respirar sem que isso incomode alguém. Só quero poder ser livre de ir dormir e acordar à hora que me apetecer, sem represálias ou castigos. Quero rir e chorar, sem que me apontem o dedo e decidam enxovalhar-me. Quero poder falar com quem gosto (e que gosta de mim), sem que se gabem de que “nunca vou ter alguém”.

Ouvir repetidamente, desde criança, que sou uma falhada, infeliz, gorda, feia, não fez de mim a pessoa que eles queriam. Em vez de odiá-los, deixei de gostar de mim. Comecei a olhar-me ao espelho com repugna. Comecei a duvidar de cada decisão e passo. Fechei-me, construí muralhas à minha volta e deixei-me estar escondida de todos, sentindo-me o pior humano à face da terra.

Eu só queria poder respirar sem que alguém desejasse que isso não acontecesse. Queria poder ser feliz, sem medo de alguém me estragar a felicidade. Queria poder ter união familiar e contar com os meus. Mas não posso. Não tenho. Tenho, em vez disso, uma família disfuncional que me obriga a reprimir o que sinto e o que sou e a colocar uma máscara feia – a aparência que eles querem que tenha.

Cada passo que dou de encontro à vitória, cada degrau que alcanço é uma desgraça. É motivo de inveja, de troça e oportunidade de deprimir-me. Estou farta destas amarras, de ter de aqui estar só porque não tenho a estabilidade financeira suficiente para sair daqui! Quando é que este pesadelo irá acabar? Quando poderei respirar sem medos? Quando poderei ser quem sou sem represálias ou defeitos apontados? Só queria ser eu mesma. Só queria que alguém gostasse de mim, mesmo assim, com todas as imperfeições, quilos a mais e defeitos. Afinal, sou humana. Também erro e mereço ser livre.

Quero tanto ser livre. Quero tanto libertar-me deste sufoco em que ando constantemente. Quem me dera que o tempo passasse depressa e finalmente, chegasse o dia da minha independência, para pôr um fim a toda a chantagem psicológica, a toda a violência. Só quero ser livre. Será que é tão difícil concretizar sonhos? Será que é tão mais fácil usar uma máscara e comportar-nos como pessoas que não somos?