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Onde o Mar Abraça

Onde o Mar Abraça

Neste mar imenso onde a solidão me abraça e me dá o colo que vazio se encontra, procuro por ti em todo o lugar vago, pois sinto-te perto. Neste mundo imenso em que fico submersa, sinto-te tantas vezes e faço de tudo para que te orgulhes.

Para mim, cresceste. Tens a idade que terias se aqui estivesses. Sorririas para mim, tal como sempre te imagino. A sorrir. É a sorrir que te imagino. Desde pequena que tentei preencher a tua ausência, dando o amor que era teu aos primos. Sei que jamais me trairias como eles. Que jamais me virarias as costas. Só que agora, como posso preencher uma ausência que te pertence? Este lugar vago a meu lado é teu. Será sempre teu. Ninguém pode ocupá-lo. Essa mágoa irá acompanhar-me no tempo, diminuindo talvez, pois o amor que nutro por ti é maior do que toda a dor. E durante essa caminhada, talvez consiga perceber o porquê de ter de ter sido assim.

Talvez todos precisavam menos eu. Talvez eu não fosse e não sou merecedora de tamanho amor. Talvez não te merecia. Existem infinitos “talvez”. A única certeza que tenho é que andas comigo, vês-me alcançar cada degrau, desfrutas das minhas viagens loucas de carro e salvaste-me naquele dia. No dia do meu aniversário, quando poderia ter caminhado para junto de ti, salvaste-me. É nisso que quero acreditar, pois sinto-te sempre. E com isso, vem a dor. Esta dor que me desampara, mas que também me garante que sou humana, que tudo poderia ter sido diferente ao partilhar uma vida ao teu lado.

Imagino-te sempre sorrindo. Em cada ceia de natal que faltas, tem um lugar só teu. Imagino-te nele. Sorrindo. Rindo das nossas parvoíces. É assim que te imagino, que imagino a vida que teríamos. Os sermões que ouviria por ti, os segredos que teríamos sem que ninguém soubesse, as vezes que pediria por ti aos pais, as nossas viagens de carro, os nossos passeios e todos os pedidos que me farias e que te faria a vontade.

A praia que hoje me acolhe, onde esperava trazer-te, sente-te. Caminhaste por aqui. Quiçá, estás agora, sentado a meu lado, sorrindo e olhando o mar, tal como eu. De tudo o que constantemente pedi, a única coisa que não fui a tempo de conhecer foste tu. Tenho-te. Não te vejo. Não te abraço. E a maior dor será sempre esta falta de tato, esta falta de contacto, pois é isso que me falta. És tu que me faltas, que não estás quando chego a casa, que não ris das minhas palhaçadas, que não estás nas fotografias.

És uma grande parte de mim, o motivo da maior mágoa que tenho e que não consigo curar. O irmão que sempre quis. Onde quer que estejas, espero que estejas feliz com o que já conquistamos, pois tudo o que faço, faço-o por ti(nós). Até já.

Quanto mais penso, mais reflito nas coisas boas e simples que me aqueciam o coração. Quando era apenas uma miúda com o coração ocupado por um rapaz super good vibes, um elogio da parte dele coloria o meu dia (ou noite, que era quando nos víamos). Naquela fase obscura, onde nenhum raio de luz se atrevia a entrar na minha caverna, ele era a minha luz no final do túnel.

Por causa dele e da promessa que fiz com ele, deixei de mutilar-me por algum tempo. As horas eram passadas a conversar de tudo. Não haviam horas mortas, falta de conversa. Apaixonei-me a valer naquele ano e todos os momentos, não românticos, que passei ao seu lado são dos que guardo com mais carinho.

Em questão, relembro-me constantemente de um episódio em que fui vestida all blackcomo sempre andava naquela altura –, e despercebida passei. Passado uns segundos, ele saiu de propósito da sala de aula onde estava, para me dizer “estás linda hoje”. O sorriso, que nunca me aparecia, apareceu ali. Porque era genuíno o seu comentário e naquela altura só aquele tipo de comentários é que me faziam feliz. Hoje, apercebo-me da quantidade de elogios que me deu, não pelo físico mas por tudo o que eu era e não sabia.

Apercebo-me no final desta reflexão que nunca mais estive apaixonada. Desde 2014 que não sei o que é ter borboletas na barriga. Todos os meus relacionamentos foram feitos de paixões mais fracas, não menos importantes, mas que não me davam aquele nervoso miudinho ou me deixavam por horas e horas na cama, a pensar no futuro com aquela pessoa.

As minhas relações foram começadas por carência. Esta é a verdade mais cruel que admito a mim própria e aos demais (a vocês). Nunca foi amor. Nunca foi paixão. Foi apenas carência. E foi por ser carência que me envolvi com quem não devia, que atraio quem não sou de todo compatível. É carência. Nunca será amor. E é por isso que farto-me rápido, que sufoco, que detesto namorar e sair e fazer “coisas de casais”, pois não me sinto apaixonada, não estou a viver aquela fase “glitter” ou “arco-íris”. Não existem borboletas. Existe apenas a minha carência. O meu medo de estar sozinha e o não saber lidar com isso. (Ainda.)

Por tais razões e muitas mais, sei que a Carolina apaixonada aos 14 anos era bem mais feliz que eu. Com a sua história complicada na altura, com os seus cortes e a sua doença. Era mais feliz. Rio-me, ao escrever isto, porque, na altura, jamais acreditaria nisto que escrevo. Só que era feliz. Era-o e não sabia. Era porque sabia priorizar-me, não me envolvia com qualquer pessoa, porque deixava-me sentir primeiro a paixão e só depois tentava algo mais.

Não avançou. As minhas paixões nunca avançaram. Mas são minhas. Hoje em dia, fazem-me sorrir, logo valeram a pena. Aprendi muito com elas. É pena ter desaprendido que, para se avançar para uma relação é necessário estar-se apaixonado. Que é coisa que já nem sei o que é.

Tenho 21 anos. Sou a Carolina. A que diz que não chora por ninguém (mas chora), a que é resmungona, cabeça dura, teimosa e já não sei o que é estar apaixonada. Só sei o que é carência, dor e sufoco. Esta sou eu. É apenas uma pequena parte do que sou, mas das mais importantes, pois não sei o que é, atualmente, o amor porque não o sinto. Se não fosse assim, não seria a Carolina. Esta é a verdade mais cruel que guardei comigo todo este tempo. Chegou a hora de abrir a gaveta e deixá-la ver a luz do dia. A luz da vergonha.

Tenho 21 anos e já não sei como é estar apaixonada.